♪ ”…zanza daqui, zanza pra acolá,
Fim de feira, periferia afora,
a cidade não mora mais em mim…“♫
Cantarolava mentalmente inspirado nos restos de frutas e legumes que chutávamos enquanto trabalhadores desmontavam a feira noturna que se improvisara na rua General Carneiro, em torno do Mercado Municipal. Noite longa, tanto para os feirantes como para nós que tínhamos o nosso primeiro minuto de silêncio quebrado por uma interjeição irreproduzívcl de surpresa que ela soltou com a expressão de quem descobre um tesouro. Apalpou a bolsa até localizar a lata de cerveja que havíamos escondido horas antes, num lugar pouco recomendável da Rua Augusta — e que era cortesia da casa, mas que não pudemos abrir antes de termos de abandonar o estabelecimento.
Seguíamos em direção ao nosso prédio sem prestar atenção nos olhares de estranhamento. Ela voltou-se pra trás respondendo a algum gracejo nada simpático de um daqueles estranhos.
- Nunca viu mulher!
Olhei-a. O vestido preto, que o vento agitava junto dos cabelos, a pele branca, as pernas grossas e a sapatilha amarela que se destacava da imundície do chão. Um fio da cerveja — quente àquela altura da manhã — escorria indisciplinado pelos dedos após um empolgado gole. Era o fim do nosso breve minuto de silêncio, e o dia estava apenas começando…
…E pensei que ele jamais deve ter visto mesmo nada parecido.










