h1

Virar

31/12/2009

Um ano

♪ ”…zanza daqui, zanza pra acolá,
Fim de feira, periferia afora,
a cidade não mora mais em mim…
“♫

Cantarolava mentalmente inspirado nos restos de frutas e legumes que chutávamos enquanto trabalhadores desmontavam a feira noturna que se improvisara na rua General Carneiro, em torno do Mercado Municipal. Noite longa, tanto para os feirantes como para nós que tínhamos o nosso primeiro minuto de silêncio quebrado por uma interjeição irreproduzívcl de surpresa que ela soltou com a expressão de quem descobre um tesouro. Apalpou a bolsa até localizar a lata de cerveja que havíamos escondido horas antes, num lugar pouco recomendável da Rua Augusta — e que era cortesia da casa, mas que não pudemos abrir antes de termos de abandonar o estabelecimento.

Seguíamos em direção ao nosso prédio sem prestar atenção nos olhares de estranhamento. Ela voltou-se pra trás respondendo a algum gracejo nada simpático de um daqueles estranhos.

- Nunca viu mulher!

Olhei-a.  O vestido preto, que o vento agitava junto dos cabelos, a pele branca, as pernas grossas e a sapatilha amarela que se destacava da imundície do chão. Um fio da cerveja — quente àquela altura da manhã — escorria indisciplinado pelos dedos após um empolgado gole. Era o fim do nosso breve minuto de silêncio, e o dia estava apenas começando…

…E pensei que ele jamais deve ter visto mesmo nada parecido.

h1

Curar

21/12/2009

É um princípio sabido da Química que todo o sistema tende a permanecer em equilíbrio a não ser que uma força externa o tire desse estado. Chatelier definiu a lei geral segundo a qual um sistema em equilíbrio que é submetido a uma força capaz de alterá-lo se moverá no sentido contrário à essa força, de forma a tentar restaurar o estado de equilíbrio.

Agora imagine uma floresta: uma intrincada rede de biodiversidade a pleno ecofuncionamento. Um sistema em perfeito equilíbrio. Agora imagine que num espaço de tempo — digamos quatrocentos e poucos anos — nove em cada dez árvores é derrubada pra servir de combustível, pra fornecer matéria prima ou simplesmente pra abrir caminho. Imagine que se façam alterações no curso e na velocidade dos rios, na capacidade de absorção do solo, na composição do ar, do solo, da flora e da fauna, composta agora predominantemente por seres humanos, que batizam esse sistema transformado de cidade. Imaginou? Agora imagine o tamanho da força que existe no sentido contrário…

Claro que é um exemplo exagerado, pra não dizer químicamente inválido. Mas eu realmente acredito que o universo tende ao equilíbrio. Se um sistema — que pode ser uma cidade, um planeta ou uma pessoa — gera caos espontaneamente, é quase certo houve (ou ainda há) nele uma tentativa externa de imposição de ordem.

Parece que em algum momento da nossa domesticação, entretanto, começamos a confundir ordem e saúde. Se nosso corpo, ou um outro sistema, funciona plenamente levando em consideração todas as suas deficiências e interferências do ambiente, esse corpo está em pior estado do que um outro do qual foram removidas as interferências externas — como a ação do tempo — por exemplo?

Ou ainda: Podemos aceitar em nós mesmos limitações e incoerências e valorizar as qualidades que temos em contrapartida? E como distinguir qualidades e defeitos sem incorrer na simples adequação às modas e valores de época?

São Paulo é um gigantesco exercício de ordem, moldado em concreto, metal e barulho. E uma vítima recorrente do caos que responde a toda essa imposição de ordem. Mas as cidades são apenas o exemplo mais óbvio. É nos conflitos das pessoas que a estreita relação entre ordem e caos produz os efeitos mais interessantes, e mais catastróficos. Nosso caos, afinal, seria nossa ordem?

O mais curioso sobre o equilíbrio é ele ser o estado natural e inevitável das coisas, na hipótese remota de a gente resolver não interferir.

h1

Crer

20/12/2009

Catarina é uma ruiva de um metro e todos os centímetros imagináveis, quase tudo perna. É fogosa como o diabo, apesar de sua herança religiosa — o pai é pastor de uma igreja evangélica num bairro da periferia.

Aliás, dia desses, encontrei Catita numa praia do litoral norte, e percebi que ela tem um trecho do Gênesis tatuado no quadril, logo acima da nádega esquerda:

E Deus viu que era bom…

Eu só completaria: “… muito bom“.

h1

Entender

15/12/2009

Leva tão pouco tempo pra tudo mudar pra sempre,

e tanto tempo pra o pra sempre apenas acontecer…

h1

Querer

30/10/2009

À noite era tomado de um pânico súbito e tinha vontade de fugir (ou de morrer, quando estava em casa). Quase sempre levantava sob a desculpa de uma fome súbita, uma providência inadiável ou mesmo a necessidade desesperadora de um cigarro na sacada (odiava fumar dentro de casa). A desculpa escolhida era, na verdade, uma autojustificativa, visto que já era expert naquela forma noturna e silenciosa de solidão.

Isso até acordar naquela noite, relaxado, ao lado de Cristina. Sem desespero, sem vontade de fugir, com um sentimento morno de pertencensa e acolhimento, naquela cama que devia parecer estranha. Mesmo a respiração de Cristina, longe de um incômodo, soava como uma espécie de acalanto. E o sono venceu, sem fazer força, a estranheza causada por aquela paz tão distinta.

Nunca mais quis ver Cristina.

Cristina

h1

Tentar

18/10/2009

Digitalizar0002

No fundo, você só quer compreensão, que eu sei. Por isso essa sede insana de conhecimento, esse desespero em ser relevante para os outros e essa fixação demente pelos detalhes.

O que ainda não te ocorreu, me atrevo a dizer, é que com toda essa sua capacidade analítica e todo o conhecimento acumulado no transcorrer de anos e anos de convívio com gentes e seus problemas, tudo que você fez foi fugir de você.

Ou ainda: você buscava uma reciprocidade absurda de sentimentos, de opiniões, de valores e de sabe-se lá o que mais, que tinha como único objetivo real preencher o espaço que se abriu quando você decidiu barrar as pessoas reais do seu convívio, pra se dedicar à busca dessa correspondência perfeita.

Fala sério! Essa sua pose de coerente, de quem tem sempre com a perspectiva correta de todas as situações, de quem sabe articular as idéias e convencer os divergentes… com toda essa sua pecha de ‘razão’ você não passa de mais um romântico sonhador atrás da sua alma gêmea.

Quando se olhar no espelho, tente ver um pouco além desse seu pernosticismo e eu aposto que vai encontrar egocêntrismo, insegurança e covardia. Quando fizer isso, lembre-se de que o amor é egocêntrico, inseguro e covarde. E lembre-se dessas minhas palavras:

- Benvindo ao clube.

Atenciosamente,

Você

h1

Jogar

10/10/2009

pressa pb

Olho pela janela às duas e meia da manhã, o apartamento inundado do som dos motores, dos bares, dos vizinhos e do relógio de parede. Minha cabeça também. Dois gatos pingados descem a avenida quase deserta de carros, encharcados até os ossos por uma chuva fina que cai desde o início da tarde, quando a temperatura caiu quinze graus em pouco mais de uma hora. Mas essa é São Paulo: Uma cidade que não cansa de jogar na nossa cara a sua indisposição em nos acolher e que, ainda assim, por sarro, por resistência ou por simples resignação, nós amamos e escolhemos como nossa casa.

Talvez as pessoas se contaminem com esse espírito inóspito de São paulo. Talvez, realmente, esse estado em que nos apresentamos aqui, não seja nosso natural. Talvez aqui sejamos mais selvagens e egoístas do que seríamos, por exemplo, em Natal, Salvador, Florianópolis, ou mesmo no Rio. Ou talvez a cidade seja apenas um espelho dos que vivem nela, e personificar essa maldade toda nesse gigantesco egossistema urbano seja nossa forma de disfarçar nossa falta, pura e simples, de amor.

Nunca fui bom jogador. Nunca consegui ver muita lógica nos objetivos que regem a vida das pessoas. Há, claro, as coisas certas a fazer: antes de ser um indivíduo você é homem, pai, profissional, filho, pedestre, eleitor, parceiro. Viver é desempenhar papéis diferentes ao longo de cada dia e, a graça do jogo — pra quem acha graça — é justamente conciliar as discrepâncias existentes entre esses diversos papéis e toda a expectativa que advém deles. Eu vejo apenas gente tentando fazer caber suas idiossincrasias numa regra geral que, salvo raras exceções, nunca teve como objetivo o bem comum.

Claro, estou desiludido. Mais hoje que na maioria dos dias. A gente aprende a se defender, com o tempo, dos efeitos do egoísmo das pessoas. Mas vez ou outra a gente tenta, e às vezes só pra conferir que estamos mesmo certos. Hoje foi um desses dias: a vida ficou um pouco mais cinza, as pessoas um pouco menos interessantes, eu mesmo um pouco menos interessado nesse jogo, um pouco mais descrente do mundo e das pessoas e um pouco mais cético com relação à felicidade. Mas, claro, vim pra cá, olhar a noite insone pela janela do décimo terceiro andar, ao invés de ir pra casa. Acho que por acreditar que enquanto houver gente disposta a questionar as regras, o jogo não vai ter substituido a verdade.

h1

Avançar

08/10/2009

…Num futuro, algo distante, éramos felizes. Cada um ao seu modo. Sentiamos saudade desse tempo em que ainda nos descobríamos perfeitos, mas sentíamos também orgulho do que construímos: essa ausência de limites, essa área de livre trânsito entre almas, esse absolutamente tudo de que eramos capazes por um sorriso um do outro.

E voltando ao presente me perguntei: “Por que não já?”

Library - 1156

h1

Viver

27/09/2009
♫ "Eu tenho medo de abrir a porta que dá pro sertão da minha solidão..." (Belchior)

♫ "Eu tenho medo de abrir a porta que dá pro sertão da minha solidão..." (Belchior)

E, se a vida, no fim das contas, se resumir aos medos que a gente tem, faz sentido ter medo da vida?

Ou da morte…

E, se a felicidade for mesmo coisa de quem não pensa, dá pra pensar em ser feliz?

Dá pra ter medo de ser feliz?

Dei pra ter medo de pensar.

h1

Chover

07/09/2009

Chover

Ironicamente, nasci no verão. Uma quarta-feira modorrenta numa Sao Paulo pouco menos barulhenta e suja que a de hoje. E à tarde, choveu. Muito. Em mim, que tinha levados da minha pele os últimos restos maternos e na cidade, que tinha limpo de seu ar um pouco do peso da poeira, da tristeza e do calor de dezembro.

Dez anos depois eu de novo, na janela, caçando relâmpagos que refletiam sujos na rua enlameada. Gostava dos trovões. Do medo que eles inspiravam e da força com que se impunham. Inventava histórias, felizes, como as que não podia ver na TV. Meu mundo era uma casa apertada longe do campo e da cidade, onde os trovões se encontravam nas tardes de dezembro.

Outra década e lá estou eu encontrando a chuva. E a não ser que o céu possa doer, a chuva é tudo o que temos em comum. Sento num canto sujo da cidade. Parece que a poeira aprendeu a resistir por mais tempo. Também eu fiquei mais duro, a chuva já não me entrega alegria pela janela e é necessário um punhado de horas pra me lavar da tristeza. E da solidão.

Aos trinta fugi de casa em busca de um lugar seco pra descansar. Tinha em mente viver noites sob um céu estrelado e livre das nuvens, sem aquele batucar fremente das gotas sobre o meu chapéu. O saldo: Aprendi que o preço de um céu sempre limpo é a sede permanente, que o silêncio pode ser tão insuportável quando o mais irritante dos sons e jamais dormi uma noite sem que um teto se atravessasse entre mim e as estrelas. Ainda, descobri que a chuva não cai das nuvens, como nos ensinam na escola, mas brota de dentro da gente.

Mas foi só hoje, às vésperas de uma outra dezena de voltas pelo sol, que entreguei os pontos. Voltei ä cidade e à velha rotina de correr contra a tempestade onde quer que estivesse. De berrar contra os raios, o vento, o que fosse, gritando e maldizendo os céus por tudo o que chovia dentro de mim. Então cansei. E, cansado, pude ver algo de belo no mau tempo. E aquela beleza, após tantos anos, era também parte de mim.

Daí disse: “Que chova”.

Mas o céu se abriu.