Entre o que se sente e o que se diz há muito que se perde. Entre o que se diz e o que se entende também.
Há a forma certa de se reagir à cada coisa que se sente. E, se há, é por que é preciso que as pessoas entendam de forma inequívoca o que se passa na alma ao lado. Por isso rechaçamos, socialmente aqueles que não têm a habilidade de sentir, de sofrer, de sorrir. Por isso vemos nessa insensibilidade uma manifestação do que acreditamos ser o mal.
Hoje me senti mau aos olhos do mundo. Com um incômodo gigantesco dentro de mim que não virou ódio, nem tristeza, nem revolta. Ao menos não em nenhuma forma reconhecível. Quando li, ainda no email, a notícia da morte do Zé Cláudio eu parei. E é frustrante, por que eu gritaria e choraria por tudo o que essa morte representa, mas eu apenas parei.
Nessa longa pausa eu lembrei da forma também neutra como eu assisti à sua fala no TEDxAmazônia, seis meses atrás. Zé Cláudio dizendo que ia morrer, que lher queriam morto, por que ele defendia a floresta. Apoiei, aprovei, torci muito por ele. Parei. Agora à noite, enquanto as TVs noticiavam o assassinato, a notícia já rodando o mundo e eu ainda tentava responder à pergunta que se tornou o meu incômodo, e que nasceu da dúvida a respeito de tudo que nós não fizemos desde novembro.
Eu deixei Zé Cláudio morrer?
Não sei lidar com isso. Ninguém nunca me avisado do seu próprio assassinato. Não sei responder. E se a minha esterilidade social tiver sido cúmplice? Eu posso ser estéril e ainda assim não ser mau? Alguém pode?
