Mês

– Nem de brinde!

Era o mote da molecada naqueles 5, 6 dias após a triste rejeição que Isabella sofrera no jogo de mês. Pra quem nunca brincou ou já se esqueceu, a ideia é a mesma de um sem fim de joguinhos de adivinhação onde uma fila de coleguinhas decidem quem vai ganhar um beijo do jogador da vez tentando acertar — ou errar, dependendo do caso — uma palavra escolhida por ele, e sussurrada no ouvido de um dos companheiros que atua como árbitro ficando impossibilitado, portanto, de participar da adivinhação.

Nesse caso específico ficava pré-combinado que a palavra era um mês, o que reduzia consideravelmente as opções e, mesmo, permitia alguma intervenção no processo se o participante tivesse a capacidade de observação um pouco mais elevada. Serginho, por exemplo, era incapaz de escolher outro mês que não fosse Abril. Tenho pra mim que era pela simplicidade da palavra, sem hiatos, dígrafes ou quaisquer dessas complicações de palavras como Setembro ou mesmo Maio — ainda acho que à exceção de Uruguai qualquer reunião de mais de duas vogais devia ser dispersada imediatamente pelo batalhão de choque mais próximo por perturbação da ordem.

Nunca entendi, portanto, por que Isabella escolheu ganhar um beijo do Serginho — que sofria de acne precoce e tinha fama de ainda molhar a cama. Além do que, a mãe dele, todos sabiam, dava aula no Duque de Caxias, escola para onde todos, com alguma frequência, éramos ameaçados de extradição por mau comportamento. Algo de muito ruim acontecia por lá, e dona Helena, sim, ela participava disso. A recusa de Serginho, citando a frase que o tornou famoso por quase uma semana — ocasionalmente descobriu-se ser de autoria de dona Helena — permaneceu igualmente nebulosa desde então.

Quando Isabella casou, quase trinta anos depois daquela tarde de Abril, algum engraçadinho quis gritar ‘Nem de brinde’ na hora do ‘sim’. Foi adequadamente sufocado pelo colega. Diziam que Anselmo, o noivo, tinha outra família em Minas — acrescentava-se mais ou menos filhos, dependendo da versão. Outros, que era foragido da polícia  e alguns, ainda, que havia vindo fugido da Argentina, onde assaltara um banco ou coisa pior. Isabella nunca me disse nada a respeito, mas confidenciou ter cedido a Anselmo sob pressão:

– Já já não posso mais ter filho!

Por alguns instantes, enquanto o noivo estarrecido se recompunha daquele pequeno furdúncio, todos lembramos de Serginho, que morrera ainda moleque, vítima de uma acne que não se sabe bem como virou um tumor, e depois virou lenda. Era contado por pais há cidades dali com fins de desencorajamento de hábitos indesejados o causo do moleque que morreu de espinha. Aparentemente, com sucesso.

Sobre Lucílio

Jornalista paulistano confuso, barulhento e cinzento como a cidade.
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