Tem um cacoete de linguagem que há anos me esforço em banir do meu discurso: preceder os argumentos de um “a verdade é que…”. Um dia vinha pra casa com a Márcia, batendo um papo descompromissado em que ela me contava triste viver alguma desilusão — já notou como, ao atribuirmos uma carga trágica a essa palavra, é como se idealizássemos a ilusão? — e eu tentava entender e, na ânsia de ajudar dei algum parecer pouco refletido que fez com que seu semblante se transfigurasse de uma forma, pra mim, assustadora. Daí ela se despediu, feliz e agradecida e pronta pra revolucionar sua vida de acordo com o meu conselho. Eu segui pra casa tenso, morrendo de medo de ser responsável pela “nova vida” de alguém. Desde então “a verdade é que…” me traz à mente a imagem da Márcia sorrindo. O que é bizarro, por que nem me lembro de ter usado essas palavras. Mas deve ser a forma de o meu subconsciente me avisar que se você for muito enfáfico no que diz, há sempre o risco de que as pessoas acreditem. Claro, isso não é problema. O problema, talvez, seja eu, melhor que ninguém, saber que acreditar muito em algo não torna esse algo “a verdade”.

Verdade
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É um conto ?
Se for, foi um dos melhores que já li.Se for baseado num fato real, foi muito bem descrevido.
Eu gostei ter sentido.